Tesouro perdido



Considerada Tesouro Vivo da Humanidade pelo governo chileno e pela Unesco, Cristina Calderón faleceu aos 93 anos, no Chile, e levou consigo o idioma de um povo: era a última representante da cultura yamana ou yagána, construída ao longo de 6 mil anos pelos habitantes da Terra do Fogo, no extremo sul da América do Sul. De acordo com artigo publicado na revista Science em outubro de 2021, há indícios de que que os yamáns estavam nas Ilhas Malvinas bem antes que argentinos e britânicos lá chegassem.


Teve sete filhos, frutos de dois casamentos, e a comunidade atualmente conta com 50 pessoas, todos frutos de miscigenação com outros povos indígenas ou com brancos, o que lhe dava a condição de ser a última yamana etnicamente pura, que dominava um idioma complexo, de cerca de 32.400 palavras. Após o falecimento de sua irmã, em 2003, Cristina deixou de ter um interlocutor para conversar em seu idioma nativo.


O poeta brasileiro fala no “filosofar em alemão”, mas talvez em yagán fosse mais interessante. Segundo o Guinness Book of Records, é dessa cultura a palavra mais concisa do mundo: mamihlapinatapai, que significa "um olhar entre duas pessoas, cada uma espera que a outra faça algo que ambas querem, mas nenhuma ousa começar."


Os jovens não se interessaram em aprender o idioma e o atual líder da comunidade reconhece a falta de empenho de várias gerações quanto à preservação da cultura yamana e com Cristina vai-se a cultura de mais um povo. Cristina Calderón, entretanto, trabalhou por essa preservação e, juntamente com a neta, criou um dicionário yagán-espanhol, com um CD pelo qual algumas palavras podem ser aprendidas. Além disso, editaram um livro com as lendas, canções e histórias dos yamanas. Apesar de Cristina ter levado consigo conhecimentos importantes, sua filha Lidia Calderón tem como objetivo a defesa e o resgate do idioma e para tanto usará sua condição de constituinte.


A primeira referência aos yagáns data de 1624, feita pelo navegador holandês Jacques l'Hermite, que os encontrou por acaso. Num roteiro conhecido por todos os povos indígenas da América Latina, no século XIX os europeus encontraram cerca de 3000 yamáns que, cinquenta anos depois, estavam reduzidos a 130 pessoas, dizimados por doenças trazidas pelos europeus, como varíola e sarampo, pela destruição das fontes de proteína devido à ação de baleeiros e lobos e a destruição de sua cultura pelo processo de aculturação forçada desenvolvido por missionários britânicos. Preconceitos criados a partir da não compreensão da cultura local foram disseminados; no caso dos yamáns, até Charles Darwin deu sua contribuição negativa.


As crianças aprendem o idioma com os mais velhos e os preconceitos de que os yagáns foram vítimas atingem a todos os povos indígenas e muitos jovens veem no abandono do idioma nativo um passaporte para o mundo dos brancos, o que implica perda de identidade, com repercussões importantes em termos sociais, econômicos e, para o indivíduo, até mesmo de saúde mental. A questão crucial é que um idioma traduz a estrutura do pensamento, é uma construção coletiva da visão de mundo de um povo e o que resta irremediavelmente perdida é a cultura como um todo.


Quanto menor o número de falantes de uma língua, maior o risco de extinção e esse é o parâmetro de classificação utilizado pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura – UNESCO para considerá-la segura, vulnerável, definitivamente ameaçada, severamente ameaçada, criticamente ameaçada ou extinta. Mas há outros fatores a influenciar o destino de uma língua, sejam de ordem econômica, social ou cultural, e a falta de políticas públicas de preservação das línguas indígenas aliada ao interesse econômico de avançar sobre seus territórios é uma conjugação mortal para nossos povos originários.


Os europeus invadiram e estabeleceram seu padrão cultural como hegemônico e, nesse contexto, os povos indígenas foram marginalizados, assim como a sua cultura e foram considerados primitivos, inferiores e atrasados. Na verdade, pouca coisa mudou: os povos indígenas seguem lutando contra a exclusão social, pela preservação de seus territórios e de sua cultura.


No Brasil, estima-se a existência de mais de mil idiomas indígenas no período pré-colonização. Hoje são cerca de 170 idiomas e com risco de desaparecerem em 50 a 100 anos, o que linguistas tentam evitar e para tanto têm usado a tecnologia para preservá-las, num esforço de mais de 30 anos e se utilizam de livros escolares, dicionários, sítios da internet em idiomas indígenas. O Brasil tem cerca de 900 mil indígenas, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE, mas apenas metade apresenta condições de utilizar esses idiomas. Interessante observar que a grande maioria dos indígenas que preservam o idioma está em áreas demarcadas, que favorecem a preservação cultural daquele povo. Um exemplo desse trabalho pode ser conhecido no site do Projeto Tycho Brahe, da Unicamp,


A partida de Cristina evoca as questões enfrentadas pelos povos originários de toda América Latina e Caribe, ainda que se verifiquem especificidades, a depender do processo histórico de construção de cada nação e do peso que esses povos têm em cada uma. Desde que os europeus invadiram suas terras, os povos indígenas estão sob ataque, tanto contra sua integridade física, quanto contra sua cultura. Com maior ou menor sucesso, lutam para preservar suas terras e sua cultura, sendo importante o apoio que todos e todas nós possamos dar.



Material utilizado

A Última | Planeta futuro | O PAÍS (elpais.com)

bapi_25_AbastAguaPandemia.pdf (ipea.gov.br)

Pela sobrevivência das línguas indígenas : Revista Pesquisa Fapesp

Falar é existir - O caso de línguas ameaçadas no Brasil e no Equador (amazonialatitude.com)

(PDF) A AMÉRICA LATINA E OS POVOS ORIGINÁRIOS: SEQUELAS DA COLONIZAÇÃO | Maria Aparecida Lucca Caovilla - Academia.edu




9 visualizações0 comentário