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O Caso Milei e a ‘nova’ extrema direita: afinal, o que o fascismo tem a ver com o neoliberalismo?


Foto: Oliver Kornblihtt / Mídia NINJA @midianinja. Licença: CC BY-NC 3.0 BR DEED

por Julia Barcelos


Para situar o debate sobre o fascismo no discurso da extrema direita contemporânea, é preciso rememorar algumas décadas anteriores para compreender como este fenômeno fascista se vincula ao ideário neoliberal enquanto projeto político e econômico hegemônico.


Diante da crise econômica global que se acirrou ao longo das décadas de 1970 e 1980, o neoliberalismo enquanto conjunto de reformas estruturais, tanto no âmbito econômico quanto político, ganhou forças como principal alternativa de saída à crise estabelecida, num esforço organizado de acabar com a agenda de laissez-faire construída até ali. 


Nos discursos políticos e midiáticos, o neoliberalismo propaga a imagem da redução da atividade e controle do Estado como algo positivo para os investidores internos e externos, isto é, para a dinamização do mercado e, ao mesmo tempo, para atender aos interesses da população no acesso aos serviços de qualidade. O arcabouço neoliberal promete “desburocratizar” o Estado e ampliar o setor privado como formas de ampliar a eficiência e produtividade. 


Entretanto, após mais de 40 anos de neoliberalismo, o que se evidencia é que todo o receituário de ajustes fiscais e contrarreformas (trabalhista, previdenciária) não só se mostrou insuficiente para resolver a crise econômica, como foi o criador do próprio desastre que tentou administrar. Responsável pela desregulamentação do mercado de trabalho, pelo desmonte dos sistemas de proteção social e pelas dificuldades no acesso aos direitos sociais pela parcela mais vulnerabilizada da população. 


No Brasil, por exemplo, as reformas gerencial e administrativa do Estado, defendida por figuras importantes como Rodrigo Souza Filho e Bresser Pereira, e o Plano Real ganharam maior amplitude nos anos 1990.  Ambos são elementos fundamentais para compreender o neoliberalismo no Brasil e se situam no bojo das recomendações feitas por organismos multilaterais como Fundo Monetário Internacional e Banco Mundial. 


Em linhas gerais, as estratégias do neoliberalismo que visam desburocratizar o aparato estatal e desvincular o orçamento público de suas responsabilidades sociais atende apenas ao interesse do mercado, uma vez que reduz a oferta de bens e serviços em prol do aumento do papel de financiador que o Estado adquiriu, formando mercados instáveis e uma narrativa de lucro ao redor de serviços que deveriam ser essenciais.



Outras formas de radicalização do discurso da extrema direita no Brasil


Se, por um lado, o neoliberalismo não foi eficaz enquanto estratégia econômica para solucionar a crise financeira e fiscal, por outro, logrou êxito enquanto arcabouço político-ideológico, se tornando o dogma mais difundido do planeta a partir dos anos 80. O discurso permanente de crise econômica é o principal argumento para o avanço de ajustes e reformas recentes que vão de encontro aos direitos sociais previstos na Constituição Federal de 1988. 


A crise política que se instaurou no Brasil e resultou no Impeachment da presidente Dilma Rousseff denunciou uma retomada dos ajustes neoliberais mais ortodoxos, marcando um governo interino com o menor índice de aprovação popular. Este cenário foi terreno fértil para o discurso neofascista e sua amplitude a nível nacional.


Assim, a “nova direita” se estabeleceu como uma alternativa à crise política e econômica já conhecida e ganhou visibilidade na figura de candidatos políticos que se auto proclamam como outsiders, como Jair Bolsonaro. O ódio à política se uniu à insatisfação política.   


Este não foi um fenômeno exclusivo do Brasil, No mundo inteiro vemos o crescimento político de figuras como Donald Trump, nos EUA, Giorgia Meloni, na Itália e, mais recentemente, Javier Milei na vizinha Argentina. Os políticos “anti-política” vendem uma imagem de insatisfação e mudança, de não alinhamento com as direitas ou esquerdas clássicas - taxando-as de corruptas e inúteis. Porém, analisando com mais atenção, é possível ver claramente a quem servem os anti-políticos. 


Essas figuras não só dão continuidade ao projeto neoliberal, como promovem a sua radicalização no que diz respeito ao ataque e retirada de direitos da população. Nesse contexto de radicalização do neoliberalismo e de fortalecimento dessa direita desenfreada, tem-se que tudo é mercadoria, fortalecendo o discurso de “contenção de gastos” que sustentam as políticas de austeridade fiscal.


Para estes governos, entende-se como “gasto” todo investimento realizado nos setores sociais, como educação, saúde, ciência, tecnologia, meio ambiente e tantos outros. Por um lado, a “nova” direita radical alega faltar recursos para promoção de determinadas políticas públicas que assegurem o acesso aos direitos, por outro lado, percebe-se o maior investimento em políticas de segurança pública - e na sua militarização - visando garantir o controle dessa população cada vez mais desprotegida. 



Disputa de narrativas -  como o neoliberalismo contra o mundo: mídias sociais e direitos humanos


A onda neoliberal impacta  diferentes países do mundo e, sobretudo a América Latina, e os  efeitos dessa agenda conservadora se expressam no desmantelamento do Estado enquanto garantidor dos direitos humanos. Nesse cenário de consolidação do neoliberalismo e, consequentemente, maiores obstáculos para efetivação dos direitos de um modo geral, os movimentos sociais tendem a dar mais ênfase para direitos como saúde, educação, segurança pública, moradia, etc.


Nos últimos anos o cenário político tem sido atravessado pelo aumento do discurso conservador, patriótico e neoliberal, protagonizado por grupos de extrema direita em diferentes países do mundo e caracterizam esse preocupante fenômeno mundial como um deslocamento conservador. Associados a emergência e consolidação desse fenômeno estão: o desinteresse dos jovens pela discussão de políticas públicas fundamentadas em bases democráticas e as amplas campanhas de ultradireita realizadas nas mídias sociais. 


Apesar do tema da democratização da comunicação e diversidade cultural ter tido bastante peso nos governos progressistas nos diferentes países da América Latina, no Brasil, após a destituição do governo do Partido dos Trabalhadores, imediatamente houve a fragilização dos meios de comunicação populares e o desmantelamento da comunicação pública, priorizando assim uma comunicação que propaga a desconstrução dos direitos. 


Cabe destacar também como o monopólio dos veículos de comunicação interfere na seleção de informações e formação de opinião de massas, o que vai na contramão da articulação entre democratização da comunicação e diversidade cultural. Isto porque, a comunicação influencia diretamente nos hábitos e na construção de um “senso comum” e, ao negar espaço para os grupos que atuam em prol da justiça social, ocorre a invisibilização da atuação cultural realizada nos distintos territórios.


Nesse sentido é possível problematizar a relação entre comunicação, democracia e direitos humanos na medida em que se fragilizam os espaços democráticos de discussão das políticas de Comunicação e Cultura, pois a Comunicação é tratada, de um modo geral, como algo que não faz parte do conjunto dos direitos humanos. É fundamental compreender que, mais do que o direito à informação, é previsto por lei o direito à Comunicação, direito este que é negado aos cidadãos e cidadãs através de obstáculos legais que impedem o desenvolvimento de redes de comunicação populares, favorecendo as oligarquias já estabelecidas no Brasil. 


Para garantir o direito à comunicação, antes de tudo, é preciso democratizar os espaços de discussão das políticas de Comunicação e Cultura, além de garantir o fomento de políticas de apoio às redes de comunicação comunitárias e populares a fim de garantir a pluralidade de pensamento em um sistema dito democrático. É possível problematizar também as concessões dadas aos grandes veículos de comunicação e os monopólios dos mesmos.



07 de dezembro de 2023




Curadoria do Fórum Social Mundial da Saúde e Seguridade Social


Todas curadorias são revisadas pelas Coordenadoras Isadora Borba e Rafaela De Negri


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Referências Bibliográficas


BRESSER PEREIRA, L. C. Estratégia e estrutura para um novo Estado. In: Revista de Economia Políica. Vol. 17, nº 3, jul.-set, 1997.

CALIBAN, Cinema e Conteúdo. Privatizações: a Distopia do Capital. 2014. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=A8As8mFaRGU&t=902s>. Acesso em: 20 nov. 2019.


Cabral Filho, A. V., & Dantas Taveira Cabral, E. (2020). Cultura e comunicação como direitos humanos: aproximações diante da nova onda neoliberal. Liinc Em Revista, 16(1), e5082. https://doi.org/10.18617/liinc.v16i1.5082 


SOUZA FILHO, R. Gestão Pública & Democracia: a burocracia em questão. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2013.

ALVES, G. Dimensões da Reestruturação Produtiva: ensaios de sociologia do trabalho. Bauru - SP: Canal 6 editora, 2007.


LAS EXPRESIONES DE LA DERECHA EN BRASIL Y EN ESPAÑA : CONSERVADURISMO, NEOLIBERALISMO Y FASCISMO

https://revistes.ub.edu/index.php/oximora/article/view/29252/30730 - sobretudo a parte los grandes medios de comunicación y los sectores de las redes sociales, por el papel ideológico que tuvieron; 


Os ‘cães danados do fascismo’, o neoliberalismo e as questões sociais: os ‘rastros de lama’ do Estado Pós-Democrático https://repositorio.ufsc.br/bitstream/handle/123456789/240114/1.pdf?sequence=1


2020 Neoliberalismo e fascismo:o paradigma perverso do bolsonarismo


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