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Não há saúde mental sem a garantia de uma vida digna

Raquel Marques Landgraf e Rafaela Venturella De Negri



“A Organização Mundial de Saúde (OMS) define saúde como “um estado de completo bem-estar físico, mental e social e não somente ausência de afecções e enfermidades”.



Em setembro de 1994, um jovem americano de apenas 17 anos tirou sua vida enquanto dirigia o seu Mustang amarelo. Durante o velório sua família e amigos distribuíram fitas amarelas e mensagens de apoio para os convidados. Este pequeno, mas significativo gesto ganhou repercussão e se tornou um símbolo de prevenção ao suicídio, não apenas nos Estados Unidos (USA), mas em todo o mundo.

O suicídio é uma realidade mundial. Segundo uma pesquisa realizada em 2019, pelo Ministério da Saúde (MS), foram registrados naquele ano mais de 700 mil suicídios em todo o mundo, no entanto, em decorrência da sub notificação dos casos, a estimativa é que mais de 1 milhão de casos ocorreram. Realidade não destoante da brasileira, em que a média de suicídios diários registrados, em 2019, foi de 38 pessoas.

De acordo com a OMS - a Organização Mundial da Saúde, a taxa global de suicídios sofreu uma redução de 36% entre 2000 e 2019, no entanto as Américas, durante o mesmo período, registraram um aumento de 17%. Entre o ano de 2010 e 2019 foram registrados mais de 112 mil suicídios no Brasil, representando um crescimento total de aproximadamente 43% na década observada. Na tentativa de aumentar a conscientização popular sobre esta realidade, o Ministério da Saúde, em 2015, criou a campanha Setembro Amarelo, cujo foco está na prevenção de suicídios, no fortalecimento da saúde mental e no compartilhamento de informações sobre o tema.

O tema do suicídio e do sofrimento mental vem sendo tema em uma série de produções. No ano de 2017, a série 13 Reasons Why (Os 13 porquês) tornou-se um fenômeno mundial, e em virtude disso, diversas outras emissoras, plataformas de streaming e redes sociais passaram a abordar ativamente o tópico da saúde mental. Isto foi capaz de desmistificar muitos aspectos do tema e proporcionou uma visão mais humanizada sobre as vítimas dessas enfermidades. No entanto, mesmo com todo este novo foco e holofote comercial, as raizes do suicídio como acontecimento social não foram extintas - e nem devidamente exploradas nas produções em questão -, o que permitiu que o suicídio fosse a 4° causa mais comum de mortes entre os jovens do Brasil no ano de 2022, sendo que quase 100% destes casos foram relacionados às doenças mentais.

Ao analisar a curva de suicídios, é possível fazer um paralelo entre os casos e os períodos em que ocorreram. Em 1777, Johann Wolfgang publicou o livro “O Sofrimento do Jovem Werther” em que expôs a triste história de um jovem que sofria com uma paixão impossível por sua amada “Lotte”. Este livro teve uma comoção tamanha na europa que uma onda de suicídio de jovens ocorreu, estes cometeram o ato usando roupas parecidas com a do personagem e a mesma arma que foi descrita no livro. Este mesmo fato foi observado na crise de 29, situação em que diversas pessoas perderam seus patrimônios em virtude da falta de regulação da economia, neste mesmo período houve uma onda de suicídios que assustou não apenas os EUA, mas todo o mundo. O chamado efeito Werther afeta a população não apenas quando grandes atos ocorrem, como um famoso cometendo suicídio ou com eventos supracitados, ele ocorre no micro, quando uma pessoa tira sua vida e seus colegas ou familiares acabam fazendo o mesmo. Assim sendo, as campanhas de prevenção de suicídio deveriam ser o principal foco do MS, uma vez que quanto mais pessoas tiverem acesso a mensagens de ajuda, de concientização e que as mostrem o caminho para a assistência, mais a onda de suicídios será subistituida pela onda de prevenção. No entanto, as campanhas e discussões parecem apenas ganhar fôlego em Setembro, apenas neste mês é possível observar uma real comoção em torno do tema. A culpa não é do Werther, nem do Mike e nem da Hannah, a culpa está na falta de manejo do tema, na falta exposição constante e na falta de campanhas de prevenção que superem o período limite do nono mês do ano.




Prevenir não é imprimir mensagens motivacionais, colar cartazes com glitter na porta da empresa e tão pouco colocar uma personagem na novela que representa uma caricatura da depressão. Trabalhar na prevenção do suicídio é expor os locais em que a ajuda é encontrada, é disseminar os sinais de alerta, promover eventos nas escolas para discutir o tema de maneira séria e fortalecer uma cadeia de diálogo que desmitifique a saúde mental, oferecendo ajuda especializada. Prevenção é o ato de antecipar, é escutar e permitir a fala dos que sofrem, viabilizando um sistema de saúde pública e de acolhimento social para proteger aqueles que buscam ajuda. Prevenir é entender como o sofrimento emocional atua dentro da nossa sociedade.

Na obra “Sociedade do Cansaço” Byung-Chul Han, filósofo sul coreano, afirmou que a positividade que a sociedade da superprodução e do super desempenho prega é uma violência neural, uma vez que o descanso é inaceitável. Esta análise vem se constatando como verdadeira com o passar dos anos, fato que pode ser observado pelo alto número de burnout registrados, a intolerância perante o sentimento de tristeza e o aumento da sensação de inutilidade e incapacidade que vem sendo observados anualmente. Desta forma, é possível afirmar que essas violências, praticadas por essas expectativas de eterna produtividade, vem causando um surto social de ansiedade, tristeza, depressão e muitas outras doenças mentais que podem levar ao suicídio e uma vida não digna, com falta de saúde mental, física e emocional - indo de acordo com as definições de saúde da própria OMS. Cabe ressaltar que embora seja mais observado entre os jovens, os idosos que estão à margem da “produtividade” - como o caso dos suicídios recorrentes no Chile quando ainda não havia seguridade social ligada à aposentadoria - também sentem os efeitos desta “positividade”. Ao terem sido retirados do mercado de trabalho, sem um apoio digno e com esta mentalidade de “valia pela produção”, muito idosos aposentados - assim como outros indivíduos não “produtivos”, os corpos não dóceis de Foucault - são vistos como cidadãos de não valia, isolados e deixados à margem do sistema social de proteção. Esta realidade é corroborada pelo aumento do número de suicídio entre idosos divulgado pelo MS, em 2019.

Numa tentativa de melhor compreender a elevação no número de casos de suicídios, o instituto Ipsos realizou uma pesquisa cujo resultado revelou que o brasileiro demora mais de 3 anos para procurar ajuda médica para o tratamento de depressão e que 4 a cada 10 entrevistados pensaram em suicídio e mesmo assim não procuraram ajuda. Este resultado mostra que ainda há muito o que se melhorar na divulgação de informação sobre sofrimento mental e sobre os meios de se conseguir ajuda especializada.

Com o aprofundamento das estruturas capitalistas, duas estruturas se cruzam: a super exploração dos corpos e dos sistemas pela ordem do lucro. Na primeira, o indivíduo torna-se cada vez mais diluído, que em consonância com a valia pela produção sendo muito presente no cotidiano, torna a vida passível de ser medida pela produção e pelo lucro que geram. Além de todo este estresse e desumanização que viver nesta sociedade vem empregando, a exaltação da exaustão e as cobranças próprias por conseguir harmonizar todas as esferas da vida culminam em sofrimento mental, no sentimento de impotência, de não pertencimento e da falta de sentido que tem-se notado.

A exploração dos sistemas se dá pela constante desestruturação dos sistemas de saúde públicos, que vem sendo desmontados e dessensibilizados, com trabalhadores cansados e impotentes frente à infraestrutura não revigorada.

As pessoas estão adoecendo - socialmente - e não há um sistema de saúde forte o bastante para tratá-las. Não necessariamente pela falta DE, mas pela falta de O BASTANTE DE e DO QUE se é possível fazer em meio a um sistema social que nos adoece constantemente. Por exemplo, o nosso Sistema Único de Saúde (SUS) oferece atendimento psicológico nas Unidades Básicas de Saúde (UBS), e no centro de Atenção Psicossocial (CAPS), nestes locais é possível encontrar ajuda especializada e pronta para atender as necessidades da população, sendo em muitas cidades do Brasil um serviço 24 horas. O CAPS em especial, oferece atendimento com psicólogos, psiquiatras e terapeutas ocupacionais, empenhando-se não apenas na prevenção do suicídio, mas na reabilitação, uma vez que oferece também terapia pessoal e conjunta, orienta sobre o dia a dia, ajuda na medicação e, em alguns casos, capacita para a realização de serviços, como escrever, cozinhar e tocar instrumentos. Podemos ver esta ação mais ampla do que apenas apoio psicológico agudo como uma possibilidade de reinserção social: agora muitas pessoas que não viam sentido na vida podem ter a chance de aprender e se engajar em algo que as proporciona ânimo para continuar, indo este trabalho vai muito além do atendimento emergencial, trabalhando também na prevenção e no acompanhamento dos pacientes. Contudo, sabemos que o tamanho do SUS e suas capacidades - ainda que formidáveis - não alcançam, devido a falta de um orçamento de acordo, a totalidade da necessidade nacional, deixando cidadãos para trás.

Há ainda a possibilidade de buscar ONGS e outras iniciativas, como o Centro de Valorização da Vida (CVV) pelo número 188, que oferece o telefone 24 horas; como a página “Quero Falar”, mantida pelo Fundo Internacional de Emergência das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), que oferece um canal seguro para se buscar ajuda, proporcionando um atendimento exclusivo que busca a acolhida e a escuta ativa. Mantendo o mesmo ideal de trabalho, outras ONGs como Amigos da vida e o Grupo Amor Vida oferecem ajuda, não apenas com os atendimentos emergenciais, em caso de tentativa de suicídio, como para a escuta e agindo na disseminação de informação sobre depressão, saúde mental e suicídio. É válido enfatizar também que a pandemia alavancou as terapias online, em que há a possibilidade de conversar com psicólogos de todo o país. Com preços variados e profissionais que suprem as expectativas dos usuários, a terapia online vem ganhando espaço e proporcionando um impacto positivo na população.

Todas iniciativas válidas, mas que não conseguem ir ao centro do problema: nosso sistema sócio-econômico nos adoece. O capitalismo como sistema organizativo da realidade é avesso aos direitos humanos e sua ampla e fundamental garantia, já que depende da exploração dos corpos e dos planeta, negando redistribuição de lucros e se fortalecendo através da pobreza que gera. Não há saúde mental no capitalismo, não há saúde mental sem sistema de saúde público fortalecido, não há saúde mental sem garantia de moradia, de alimentação e de felicidade. Não há saúde mental sem vida digna.


Caso esteja necessitando de ajuda, entre no link abaixo.


Os trabalhos do FSMSSS são revisados por Isadora Borba e Rafaela Venturella De Negri





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