BELL HOOKS E ATIVISMO POLÍTICO


Nosso entrevistado:


Vinícius da Silva é artista, pesquisador e tradutor; formado em Controle Ambiental (IFRJ), graduando em Artes Plásticas (UFRJ), apresentador do podcast Outro Amanhã e colunista da Revista Ruído Manifesto. É autor de Fragmentos do porvir (Editora Ape’Ku, no prelo), onde discute a dimensão ético-política do amor em bell hooks, racismo ambiental e as possibilidades de construção de um futuro a partir das práticas negras. Suas pesquisas, a partir da arte, filosofia e ciência ambiental, direcionam-se à discussão sobre o fim do mundo como o conhecemos e à produção de novas alternativas, a partir da arte e da mutualidade revolucionária. Em 2021, com De bala em prosa: vozes da resistência ao genocídio negro (vários autores, Editora Elefante, 2020), foi finalista (segunda fase) do 63º Prêmio Jabuti; venceu, em segundo lugar, o concurso de ensaísmo da serrote, com o texto “Barricadas para o fim do mundo” (publicado na edição 39 da revista); e foi um dos dez artistas selecionados, do mundo, para participar da elaboração de The Red Earth (Chapter 1 of Opera Infinita), uma produção de Jota Mombaça, Denise Ferreira da Silva e Anti Ribeiro.


Confira nossa entrevista abaixo, realizada por nossa coordenadora de comunicação, Rafaela De Negri, em memória de bell hooks, falecida na última semana em 15 de dezembro de 2021.


R: Muito obrigada por topar estar aqui falando sobre assuntos tão importantes e sobre essa ativista, pensadora e mulher igualmente importante: Gloria Jean Watkins que publicou mais de 30 livros, escreveu inúmeros artigos acadêmicos, participou de tantas atividades revolucionárias, foi professora, ativista feminista. Aqui iremos nos referir a ela por seu pseudônimo de publicações: bell hooks. Você poderia nos dar uma visão geral do que foi a vida e a produção dessa mulher incrível?


V: Nascida Gloria Jean Watkins, em 25 de setembro de 1952, hooks assume o pseudônimo “bell hooks” (em grafia minúscula) em homenagem à sua bisavó materna, Bell Blair Hooks, num importante movimento de rememoração e reconhecimento ancestral e, logo após a publicação de sua primeira obra, Ain’t I a Woman? Black Women and Feminism, em 1981, se torna uma das mais importantes e reconhecidas (mundialmente) teóricas críticas estadunidenses. Tendo vivido no Sul dos Estados Unidos a partir da segunda metade do século XX, hooks se apropria de sua experiência vivida para a construção de processos epistemológicos e teorizações que, hoje, nos auxiliam a compreender as múltiplas dinâmicas que atravessam o nosso cotidiano social. Com isso, hooks formula um (novo) processo de teorização que parte do corpo e da sua potência para a construção de instrumentos de compreensão e transformação da sociedade contemporânea. Trata-se, portanto, da intelectualização das nossas experiências – elementos centrais para a compreensão e transformação da realidade, embora a racionalidade cartesiana tenha negado isso. Ao longo de mais de 40 livros já publicados, hooks nos convoca à ação e sempre fez questão de reforçar bem a relação entre pensamento e práxis. Não há pensamento sem práxis, e vice-versa. Sem nunca perder de vista as mazelas sociais e tendo criticado severamente as estruturas da nação, a obra de hooks é uma obra que nos convoca ao movimento, ao amor, ao estar junto.


R: Coloquei o termo “mulher” na pergunta anterior porque um dos primeiros livros publicados por hooks foi o “Ain’t I a Woman?”, obra que analisa o papel da mulher negra nas revoluções feministas - como o sufrágio e a revolução sexual dos anos 60 e 70 - e sua intersecção com o racismo e o machismo. bell hooks pode ser vista como uma feminista interseccional? O que ela nos ensinou sobre a relação gênero - raça - classe?


V: Embora bell hooks nunca tenha reivindicado para si a categoria da interseccionalidade e já tendo a criticado, podemos dizer que hooks é uma feminista que faz uso dos sistemas unitários, isto é, da compreensão de que os sistemas de dominação se relacionam (se interseccionam, portanto) de forma que eles se retroalimentam e se co-constituem a partir das opressões históricas. A isso, hooks chama de “patriarcado capitalista e imperialista de supremacia branca”. O que esse conceito nos ensina é que não é possível compreender as relações entre gênero, raça e classe, apenas para citar três marcadores sociais da diferença, sem entender que eles fazem parte de um todo, que se relacionam de forma visceral e não se distanciam um do outro. “Raça”, segundo hooks, não vem primeiro, quando falamos de racismo. O racismo é, também, sexismo, classismo, e assim por diante.


R: Mulher negra e norte-americana, podemos traçar um paralelo entre hooks e outras autoras e ativistas como as irmãs Fania e Silvia Davis, Doutor Martin Luther King, Malcolm X, Bobby Seale?


V: Certamente, ao longo de sua obra hooks recorre a vários desses autores, como MLK Jr. e Malcom X, por exemplo, para falar de ativismo e liderança negra, poder, patriarcado, amor, dentre outros assuntos relevantes, a depender do livro em questão. As análises de hooks, de alguma forma, sempre convoca atores sociais. E se tratando de uma obra que busca sempre interlocutores, podemos dizer que ainda hoje encontramos potentes interlocutores que discutem a obra de hooks com grande responsabilidade e honrando o seu legado, como os professores Wanderson Flor do Nascimento, Luana Luna, Rosane Borges e Mariléa de Almeida.


R: Muitos desses movimentos foram criminalizados desde seu nascimento. Condenação social que cresceu quando suas pautas começaram a exigir uma “re-construção” da realidade social, ligando o racismo, o machismo e os preconceitos sofridos com uma lógica capitalista exploradora. bell hooks sofreu a mesma retaliação?


V: Podemos dizer que sim, mas de formas diferentes, pois o ativismo de hooks foi construído a partir de um contexto diferente e em ambientes distintos. Muito do que hooks trabalha em suas obras e o que nos faz lê-la enquanto ativista, é fruto de experiências educacionais ou do movimento feminista e negro da época. Eu vejo, de forma mais clara e visível (apesar de termos outras hipóteses), que hooks sofreu muita retaliação após as suas análises sobre o Lemonade de Beyoncé, em 2016, o que fez com que ela saísse da internet.


R: Um dos seus livros mais conhecidos, “All about love”, é um exame do amor e suas possibilidades na sociedade moderna. Poderia falar pra gente da relação que hooks traça entre amor, mudança social e um novo jeito de se fazer política?


V: Primeiramente, é importante entender que a análise de hooks sobre o amor não se distancia de suas outras discussões, como o feminismo, a crítica cultural e a questão das masculinidades, apenas para citar algumas. Para mim, uma das visões mais importantes de hooks, presente em Writing Beyond Race, é a noção de que todo movimento pela justiça social é baseado na ética do amor. E é importante dizer sempre que o amor do qual hooks fala é uma categoria política, não uma mobilização superficial de afetos românticos. Neste sentido, penso que grande parte de sua contribuição aos movimentos políticos, especialmente os movimentos negros, está na noção de que a mutualidade é revolucionária e que só se torna possível através do amor. Há um trecho de The Long Emancipation, de Rinaldo Walcott, que exemplifica bem a relação entre liberdade, mudança social e amor: “A recuperação da carne como um corpo, um corpo amado, é um vislumbre da liberdade em sua forma cinética onde a liberdade encontra o amor, e onde o amor se torna uma força ativadora para uma liberdade potencial. Neste caso, a liberdade existe além do material, ainda que seja também, e o que é importante, uma condição material. De fato, o amor, uma condição não-material, torna-se um contexto importante para avançar em direção à liberdade.” A partir desta aproximação entre Walcott e hooks, suponho, torna-se possível compreender o papel do amor nestes movimentos, tanto micro como macro-políticos. Existem, naturalmente, outras contribuições muito importantes de hooks para repensar a política, e podemos citar algumas delas: a crítica das imagens negativas da negritude; a crítica do patriarcado capitalista e imperialista de supremacia branca; a mobilização do feminismo como movimento pela justiça social. Nesse momento, podemos dizer que hooks está deixando um legado gigantesco, nós o continuaremos.




                           Ping Pong

. Quando começou a ler bell hooks? 2017
. Livro preferido: Salvation: Black People and Love
. Trecho preferido: “Quando tudo mais se for, o amor sustenta.. Trecho que mais cita em suas aulas:O amor é profundamente político. Nossa revolução mais profunda virá quando entendermos essa verdade. Só o amor pode nos dar força para avançar no meio do desgosto e da miséria. Somente o amor pode nos dar o poder de reconciliar, redimir, o poder de renovar os espíritos cansados e salvar as almas perdidas. O poder transformador do amor é o fundamento de toda mudança social significativa. Sem amor nossas vidas são sem significado. O amor é o coração da questão. Quando tudo mais se for, o amor sustenta.. Ativismo político em 5 palavras: Solidariedade política, amor, estratégia, imaginação e justiça social.

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