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A Perpetuação do Patriarcado Através da Religião

Atualizado: 1 de jul.

Por Luana Dos Santos Braga



Encontro com a Bancada Evangélica. (Brasília - DF, 30/11/2021)



“Enquanto Deus é homem, os homens serão deuses”

Mary Daly, em Além de Deus o Pai: para uma filosofia de liberdade feminina



          O sociólogo francês Émile Durkheim introduziu o conceito de coerção social, descrevendo-a como a pressão exercida sobre os indivíduos para agirem de certa maneira, visando garantir a coesão social. Dentro dessa perspectiva, a religião desempenha um papel significativo ao estabelecer padrões coercivos, especialmente em relação às mulheres, frequentemente vistas como submissas aos homens devido à construção de uma narrativa do masculino como superior. Essa noção de submissão feminina não é nova; um exemplo disso foi a caça às bruxas, um período marcante da idade média que visava punir as mulheres que não seguiam as normas da igreja, estas eram acusadas de bruxaria e eram presas, enforcadas ou até queimadas vivas. Ao longo da história, as mulheres foram frequentemente relegadas aos papéis domésticos e reprodutivos, alimentando assim a mão de obra necessária para o sistema capitalista .     

   A igreja, como instituição social, impõe normas e padrões de conduta aos fiéis muitas vezes sustentados pelo medo de punição divina. Nesse contexto, as mulheres frequentemente obedecem cegamente às doutrinas que promovem a submissão ao marido, a tolerância a diversos tipos de abuso em nome da sacralidade do casamento, restrições na vestimenta, entre outras imposições. Isso resulta em um notável repúdio das mulheres cristãs ao movimento feminista. Nesse contexto, o cristianismo, aliado ao patriarcado, as aliena de forma sistemática, levando-as a enxergar suas semelhantes como rivais ou moralmente inferiores, enquanto os homens, seus opressores, são muitas vezes idealizados como figuras intocáveis e santas. 

       A igreja muitas vezes encara o casamento como uma instituição intocável e inevitável, exigindo sua preservação a todo custo, mesmo diante de violações cometidas por uma das partes - frequentemente, espera-se que a mulher aceite todos os desrespeitos infligidos pelo marido. Esse paradigma, impulsionado pela religiosidade e pelo tradicionalismo arraigado na sociedade brasileira, contribui para a prevalência do casamento e da gravidez precoce entre meninas e mulheres em todo o mundo - mais sobre casamentos infantis pode ser lido na nossa curadoria sobre o tema. Estas são frequentemente obrigadas a sacrificar seus estudos e suas carreiras para se dedicar exclusivamente às responsabilidades domésticas e ao cuidado dos filhos. Em contraste, os homens muitas vezes se beneficiam do casamento, já que são os principais beneficiários da união, usufruindo do trabalho doméstico e reprodutivo realizado pela mulher. Nesse contexto, os homens continuam concentrados em suas carreiras enquanto as mulheres frequentemente se veem estagnadas. Aquelas que ousam ingressar no mercado de trabalho muitas vezes enfrentam disparidades salariais, diversos tipos de abuso e a sobrecarga da jornada dupla, já que ao retornarem para casa são incumbidas do trabalho doméstico não remunerado. É evidente que o sistema patriarcal e capitalista, legitimado por instituições como a igreja, prejudica as mulheres em diversas esferas da vida. 

          Além do cristianismo, no judaísmo as mulheres também são subjugadas. O exemplo clássico da aversão ao feminino no judaísmo é evidenciado na “bênção matinal” que deve ser proferida todos os dias ao acordar: “Bendito sejas Tu, Eterno, nosso Deus, Rei do Universo que não me fizeste mulher” já as mulheres devem agradecer da seguinte forma: "Bendito sejas Tu, Eterno, nosso Deus, Rei do Universo, que me fizeste segundo tua vontade". Esses mantras são extremamente violentos e desumanos, de forma que coloca as mulheres em uma categoria sub-humana sem dignidade e respeito, ao ponto de existir uma bênção matinal que o conteúdo é agradecer a uma divindade por não ter nascido mulher.

           A instrumentalização da religião pelo capitalismo é a raiz do impasse aqui tratado, uma vez que a religião foi cooptada pelo capital e passou a visar o lucro, negligenciando ainda mais a situação das mulheres, estas que também são vistas como mercadorias no sistema capitalista. No livro “O calibã e a bruxa” de Silvia Federici, a autora analisa o desenvolvimento do capitalismo através de um olhar feminista, nesse sentido, Silvia demonstra que o trabalho não remunerado exercido pelas mulheres é necessário para a existencia do capitalismo e do trabalho assalariado, uma vez que essas mulheres ficam confinadas em casa cuidando dos filhos, futura mão de obra assalariada. Dessa forma, o Estado e a igreja começam a repudiar também o controle reprodutivo, especialmente o aborto, uma vez que as mulheres são responsáveis por reproduzir a mão de obra necessária para manter o sistema capitalista e assim adicionando mais uma camada às submissões do feminino. 

      A violência doméstica e o feminicídio representam as manifestações mais extremas do machismo e da misoginia. É notório que, muitas vezes, a responsabilidade recai sobre a vítima, enquanto as redes de apoio disponíveis frequentemente se mostram insuficientes. Delegacias especializadas, por exemplo, muitas vezes estão distantes da residência da vítima, dificultando o acesso à ajuda necessária. Além disso, a falta de apoio familiar para quebrar o ciclo da violência agrava ainda mais a situação. Ademais, a culpa internalizada, muitas vezes associada a preceitos religiosos cristãos, desempenha um papel significativo em desencorajar as vítimas a denunciarem seus agressores. Esse sentimento de culpa, muitas vezes injustificado, pode impedir que as vítimas busquem o suporte necessário para escapar de situações abusivas e perigosas. Portanto, é crucial abordar não apenas os aspectos sociais e institucionais, mas também os aspectos culturais e religiosos que perpetuam a violência contra as mulheres.


Neste sentido, a educação teológica, com referenciais analíticos de gênero na interseção com etnia/raça, classe social, geração e perspectiva feminista, torna-se fundamental no processo de desconstrução de leituras, discursos, práticas religiosas patriarcais, machistas violentas que promovem o desejo concorrente e a criação de bodes expiatórios. (Abdruschin Schaeffer Rocha e Claudete Beise Ulrich, 2018. A dessacralização da violência contra as mulheres no altar do patriarcado: reflexões a partir dos conceitos desejo mimético e bode expiatório em René Girard)


   A religião, aliada ao capitalismo, desempenha um papel significativo na perpetuação do sistema patriarcal, contribuindo assim para o ciclo de violência que afeta grande parte da população feminina. Nesse contexto, a educação teológica emerge como uma ferramenta essencial para desconstruir ideias antiquadas sobre o papel das mulheres na sociedade e sobre a própria religião e seu papel social. Ao investir na desconstrução desses paradigmas, as novas gerações de meninas serão incentivadas a aspirar a algo além dos papéis tradicionais de esposa e dona de casa. Da mesma forma, os meninos serão cultivados com uma mentalidade mais respeitosa e inclusiva. Assim, progressivamente, poderemos interromper o ciclo de violência que  tem encontrado na religião “pró-capitalista” mais um aliado. Para finalizar, deixo a seguinte citação da filósofa, teóloga e freira Ivone Gebara, que luta pela libertação das mulheres do controle religioso. “O feminismo teológico tem uma grande importância na transformação das culturas, na medida em que desobriga as mulheres de obedecerem à ordem estabelecida de certas crenças religiosas patriarcais.” (GEBARA, 2017).



Luana dos Santos Braga é estudante de Ciências Sociais na Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) e curadora do FSMSSS. Todas as produções do FSMSSS são revisadas por Isadora Borba e Rafaela Venturella De Negri



MATERIAL UTILIZADO:


GEBARA, Ivone. Mulheres, religião e poder: ensaios feministas. São Paulo: Terceira Via, 2017.





















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