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A insegurança e o terror como política

Atualizado: há 2 dias

O genocídio na Palestina se tornou, desde outubro de 2023, assunto com intensa cobertura midiática por todo o mundo. Mas as tensões entre Israel e Palestina tem origem mais de um século atrás e a violência sionista contra o povo palestino já é uma realidade há muitas décadas.

Para esta curadoria, Annelise Feiler e Rafaela De Negri entrevistaram em Outubro de 2023, Gabriel Semerene, pesquisador e escritor brasileiro de origem libanesa, especialista em política e culturas das sociedades de língua árabe, a respeito das origens e da atual situação da ocupação israelense na Palestina, bem como os impactos da cobertura midiática do conflito na percepção da sociedade.

Ao final da entrevista segue uma linha do tempo com destaques históricos para proporcionar uma compreensão mais profunda acerca dos conflitos na região.



Entrevista com Gabriel Semerene:


Vemos dois extremos: a vida dos moradores de Israel seguindo normalmente, e a Faixa de Gaza e seus cidadãos vivendo em meio ao caos. Isso é necessariamente algo novo? Entendemos a piora depois do começo de ataques mais frequentes, mas podemos dizer que antes do ataque do Grupo Hamas e da resposta de Israel havia já uma política de bombardeios, bloqueios e dificuldades criadas e orientadas a instalar o terror nos moradores, correto? Com isso, a análise correta seria dizer que o Genocídio começou agora ou é possível rastrear historicamente essas políticas de aniquilação?


Não há nada de novo no cenário atual. Trata-se apenas de uma evolução do processo de colonização da Palestina iniciado pelo Império Britânico em 1918 e consolidado com a limpeza étnica de 80% da população palestina e o estabelecimento do Estado de Israel em 1948. Devemos recusar categoricamente toda narrativa que falha em inserir os eventos desde o 7 de outubro em seu contexto histórico, isto é, a colonização da Palestina e a eliminação de sua população nativa.

Os Territórios Palestinos Ocupados (Cisjordânia e Faixa de Gaza), que representam apenas 22% do território da Palestina histórica, estão sob ocupação israelense há 56 anos. Esta ocupação é ilegal segundo o direito internacional e todos os Estados do mundo, exceto Israel. A Faixa de Gaza ainda é considerada sob ocupação pelos organismos internacionais e a maioria dos Estados, pois, apesar de cessar a presença militar terrestre e retirar os 9.000 colonos israelenses de Gaza, Israel impõe um cerco total ao território, tanto terrestre como aéreo e marítimo. As forças de ocupação israelenses controlam a entrada e a saída de pessoas e mercadorias, impondo limites severos até mesmo à entrada de alimentos. Dov Weissglas, assessor de Ehud Olmert à época do estabelecimento do cerco, afirmou que as calorias consumidas pelos palestinos e palestinas seria contada, e que Israel “coloca-os para fazer regime”.

A amnésia coletiva que parece predominar no Ocidente quanto aos 75 anos de colonialismo e os abusos sistemáticos e diários aos direitos humanos mais básicos do povo palestino revela a hierarquia racista subjacente à visão de mundo ocidental. O povo palestino é submetido a inimagináveis formas de violência há quase oito décadas, algo amplamente documentado e relatado por diversos organismos internacionais e não governamentais, mas seu sofrimento nunca recebe a devida atenção política e midiática no Ocidente. Só para citar fatos recentes, onde estava a atenção ocidental quando a jornalista palestina Shireen Abu Akleh foi cruelmente assassinada por soldados israelenses em 2022, ou quando a cidade de Huwara foi incendiada por colonos na Cisjordânia em fevereiro deste ano?

Então, Israel tem quebrado múltiplas regras de respeito e garantia dos Direitos Humanos Internacionais com crimes de guerra, como a matança de civis e o uso de armas químicas. Como essas práticas se encaixam dentro do uso objetivo de terror por Israel?

O uso do terror é uma estratégia israelense que precede a própria criação do Estado de Israel. Ainda sob o mandato britânico, milícias sionistas recorriam ao terrorismo contra tanto contra as autoridades britânicas quanto contra a população palestina. De fato, o atentando ao Hotel King David, em julho de 1946 em Jerusalém, pela milícia sionista Irgun foi crucial para a fundação de Israel.

A própria Nakba - a limpeza étnica de 750 mil palestinas e palestinos em 1948 - foi o resultado do terrorismo sionista. Massacres como o do vilarejo de Deir Yassin tinham a função de aterrorizar a população palestina para que deixassem as suas casas. Os grupos terroristas que conduziram a Nakba integraram o exército israelense.

A brutal ocupação do sul do Líbano e Beirute em 1982 representa uma evolução do terrorismo de Estado promovido por Israel. É também no Líbano que foi elaborada a atual sistematização da política de terror sionista. A doutrina Dahiya, que leva o nome de um subúrbio de Beirute fortemente bombardeado em 2006, representa um novo grau de sistematização do terrorismo de Estado. Esta doutrina, ainda em vigor, indica a destruição de infraestrutura civil e o uso de “força desproporcional” contra civis como forma de afirmação da supremacia militar israelense.

Além disso, o terrorismo paraestatal também é praxe na Cisjordânia, pelo viés de colonos severamente armados, constituindo verdadeiras milícias. Sob a égide das forças de ocupação israelenses, esses colonos aterrorizam cotidianamente a população palestina com requintes de crueldade, como ilustra o sequestro e Mohammed Khdeir, 16 anos, em 2014. Mohammed foi forçado a beber gasolina e queimado vivo por colonos israelenses.




Temos visto, por exemplo, a cimentação de aquíferos, o corte de árvores nativas. Isso vem sendo um ato comum contra o povo palestino? A destruição do meio ambiente, dos recursos naturais e dos meios de subsistência do povo palestino é uma constante desde a Nakba. A imagem de escavadeiras e tratores israelenses arrancando árvores - especialmente oliveiras - em terras de famílias palestinas é tão comum que se tornou um símbolo da ocupação. Colonos na Cisjordânia ateiam fogo em campos e árvores de famílias palestinas regularmente.


Num território onde os recursos hídricos são escassos, Israel controla o acesso à água dos palestinos na Cisjordânia e em Gaza. Desde 1967, uma ordem militar israelense proíbe palestinos de construir qualquer infraestrutura aquífera sem a autorização de Israel. Poços e canais construídos por palestinos são sistematicamente preenchidos com cimento pelas forças de ocupação, com casos amplamente documentados este ano. Organizações internacionais de direitos humanos chamam a situação de “apartheid da água”.




Como a restrição de movimentos devido a bloqueios e checkpoints influencia a vida cotidiana dos civis palestinos? Não necessariamente nesse período, mas desde a criação desses pontos de controle.


As vidas dos habitantes da Cisjordânia são completamente controladas pelas forças de ocupação israelenses, e os checkpoints têm um papel enorme nesta realidade. Os checkpoints existem para reforçar a hierarquia do apartheid, isto é, controlar o movimento daqueles que ocupam categorias inferiores. Residentes da Cisjordânia, refugiados ou não, devem passar por checkpoints para se locomover entre uma área e outra, às vezes dentro da mesma cidade. A travessia dos checkpoints é feita da forma mais humilhante possível, com longas esperas que levam horas, detenções arbitrárias e, nos últimos anos, o uso de tecnologias de reconhecimento facial, drones, etc. Enquanto isso, os 600 mil colonos israelenses na Cisjordânia passam livremente pelos checkpoints, ou têm acesso a estradas especiais reservadas somente para israelenses. Isso lhes permite transitar facilmente entre o território do Estado de Israel e as colônias

na Cisjordânia.




Como os conflitos impactam o acesso dos civis palestinos a serviços básicos, como educação e saúde? Ainda é possível “viver” em Gaza ou a realidade agora é apenas a busca por sobrevivência? Como isso mudou desde o início do Genocídio e como isso funcionava antes da escalada de violência direta? Se pode dizer que os palestinos tinham acesso amplo aos seus direitos - comida, casa, educação, lazer, saúde, felicidade?


Os 75 anos de colonização da Palestina resultaram em significativos obstáculos sociais e econômicos. Serviços como a educação e a saúde são normalmente providos pelos Estados. No entanto, a inexistência de um Estado palestino dificulta o fornecimento de serviços básicos. Insumos de saúde só podem ser importados com a autorização de Israel, e geralmente são limitados a quantidades preestabelecidas. Livros em árabe, por exemplo, não podem ser importados do Líbano, onde se encontra o maior polo editorial dos países árabes. Universidades palestinas são vítimas de censura e ataques, como a Universidade Birzeit, invadida pelas forças de ocupação israelenses em setembro de 2023.

Ainda assim, a população palestina é extremamente educada, com uma dos mais altos índices de graduados no ensino superior do mundo. A prioridade à educação é um elemento cultural compartilhado com outras sociedades da região, como o Líbano e a Síria, mas a Palestina já era conhecida como uma terra de intelectuais mesmo antes da colonização sionista.

Os índices de saúde melhoraram significativamente desde que a Autoridade Palestina estabeleceu um sistema de saúde nacional em 2003, o que estava previsto nos acordos de Oslo em 1993. Além do sistema de saúde público, refugiados têm acesso aos serviços de atenção primária da UNRWA, e outros atores, especialmente ONGs, ajudam a compor a rede de saúde. Na Faixa de Gaza, sob governo do Hamas em 2007, foi criado um sistema de saúde próprio que, em conjunto com a UNRWA, Médicos de Fronteiras, a Cruz Vermelha e o Crescente Vermelho, asseguravam o tratamento da população.

No entanto, o genocídio atualmente em curso causou o colapso do sistema de saúde. O corte de eletricidade, água e entrada de suprimentos tornou impossível o funcionamento de hospitais já saturados por conta do enorme número de feridos. Vários hospitais foram visados pelas forças de ocupação israelenses; evacuações forçadas de hospitais colocam as vidas de pacientes, muitos sem condição de deslocamento, em perigo. 39 bebês prematuros no hospital al-Shifa morreram por conta da falta de eletricidade para as incubadoras e o ataque e subsequente ocupação do hospital. Infecções nosocomiais, desnutrição, desidratação, infecções por água contaminada - a situação sanitária estende-se muito além dos feridos pelos bombardeios.

As escolas foram convertidas em abrigos para 1,5 milhão de pessoas forçadamente deslocadas e, logo, não estão funcionando. Diversas escolas foram alvo de bombardeios israelenses, enquanto a Universidade de Gaza foi destruída no dia 12 de outubro. No dia 13 de novembro, forças de ocupação terrestre ocuparam uma escola da ONU e a converteram numa base militar, usando palestinos que lá residiam como escudo humano.




Como a questão dos refugiados palestinos afeta o conflito? Por que Israel está

a tornar impossível a saída das pessoas?


Há sete milhões de refugiados palestinos, tanto nos Territórios Palestinos Ocupados quanto nos países vizinhos e no mundo inteiro. Segundo o direito internacional, estes refugiados têm direito a retornar à sua terra natal ou ancestral, direito este categoricamente negado por Israel desde 1948. A grande maioria vive sob condições subumanas em campos de refugiados. A ideologia supremacista sionista vê o retorno dos palestinos expulsos e seus descendentes como uma ameaça existencial, já que seu projeto é o de um Estado exclusivamente judeu no qual a população judia deve ser no mínimo majoritária.

O retorno de refugiados representaria, também, a coexistência entre palestinos e israelenses, o que é completamente inimaginável para os seguidores do sionismo supremacista. A desumanização dos palestinos pela ideologia sionista está por trás da recusa ao direito ao retorno, pois, segundo esta ideologia, palestinos são seres inferiores com os quais não se pode conviver.




Como a situação humanitária nas áreas palestinas afetadas pelo conflito, como a Faixa de Gaza, é gerenciada? Quem pode entrar?


Há de se ter muito cuidado com o termo “humanitário” quando empregado no contexto do genocídio em Gaza. A “ajuda humanitária” que Israel permitiu desde o 20 de outubro representa um número extremamente limitado de caminhões oriundos do Egito, carregando bens previamente selecionados por Israel. Não está autorizada a entrada de combustível, essencial para geradores de eletricidades, especialmente em hospitais. A carga de água e comida representa uma minúscula fração do necessário, e mesmo caminhões carregando água foram bombardeados.

A noção de “pausa humanitária” - as quatro horas sem bombardeio - é risível frente ao nível de destruição em Gaza. De acordo com observadores, a “pausa humanitária” tem a função de permitir a expansão das forças de ocupação terrestre israelenses e coordenar a continuação da expulsão de palestinas e palestinas do norte de Gaza. Com a exceção dos caminhões egípcios, ninguém mais pode entrar em Gaza. Gilad Erdan, embaixador israelense junto à ONU, ameaçou expulsar agências da ONU como a Unicef e a UNRWA não apenas de Gaza, mas de todo o território de Israel-Palestina.


Vemos uma reação um tanto conservadora da mídia hegemônica global, com muitos veículos difundindo uma versão de “guerra”, como se fosse possível e existisse uma proporcionalidade entre as forças usadas pelos dois lados, enquanto a mídia alternativa - principalmente a ligada a movimentos de libertação e autodeterminação dos povos - sendo mais crítica e se posicionando contra o sionismo. Na tua percepção, como a mídia e a narrativa internacional influenciam a percepção do conflito?


É absolutamente estarrecedor testemunhar o definhamento moral da mídia hegemônica, especialmente no Ocidente, claro, mas também em países periféricos onde as elites acreditam, erradamente, ocupar um espaço próximo aos ocidentais na hierarquia colonial. O nível de desinformação e de desumanização promovido pela mídia hegemônica ocidental e seus apoiadores periféricos é digno de regimes autoritários. Repetem sem questionar invenções fantasiosas da propaganda israelense, como no caso da notícia falsa sobre 40 bebês supostamente decapitados pelo Hamas, e insistem em não inserir a escalada de violência atual no contexto de 75 anos de colonização da Palestina.

Por outro lado, formas alternativas de mídia têm muito mais espaço hoje graças à internet e são extremamente prolíficas. Destaque deve ser dado, evidentemente, aos jornalistas palestinos em Gaza, como Plestia Alaqad, Bissan Oudeh, Moataz Azaiza, entre tantos outros, incluindo os 42 jornalistas já assassinados por Israel. Israel também alvejou jornalistas no Líbano, matando o jornalista da Reuters Issam Abdallah. As e os jornalistas palestinas e palestinos em Gaza continuam a relatar o genocídio incansavelmente, apesar de viverem sob condições catastróficas. Graças aos esforços da mídia alternativa e de jornalistas palestinos, a opinião pública mundial começa a despertar para a realidade da colonização da Palestina. A mídia hegemônica ainda tem muita influência, mas suas mentiras e distrações são cada vez mais estapafúrdias e facilmente desmascaradas.




Por fim, apesar de movimentos e narrativas conservadoras, propagandas de guerra pró Israel e todo um arsenal de construção de realidade, vemos movimentos de defesa da Palestina Livre ao redor do mundo, num verdadeiro levante à liberdade, com demonstração globais de solidariedade - Sindicatos, grupos de povos tradicionais abrindo marchas, grupos indígenas se sensibilizando, trabalhadores do mundo se organizando para barrar navios e fábricas de armas. Como a luta pela Palestina Livre se conecta com as outras lutas por liberdade e vida com dignidade ao redor do mundo?


A imensidade e a diversidade das mobilizações pelos direitos do povo palestino no mundo todo evidencia que a luta pela libertação da Palestina não é um “choque de civilizações” ou uma guerra religiosa, como tenta nos fazer acreditar a propaganda sionista. Trata-se, isso sim, da defesa de um projeto civilizatório baseado na liberdade, na igualdade e na fraternidade, por um mundo no qual as relações entre países e entre seres humanos não sejam pautadas pela dominação, mas sim pelo direito. Todas as pessoas que se identificam com esse projeto - o projeto dos direitos humanos e da autodeterminação - percebem na causa da libertação Palestina o ponto nevrálgico do conflito entre a ordem colonial e a ideia de um mundo onde todos são iguais.

Muitas dessas pessoas que defendem o direito internacional e os direitos humanos são de confissão judia. Judeus no mundo tudo têm organizado manifestações extremamente poderosas, muitas vezes sofrendo opressão policial, como na Alemanha. Organizações como a Jewish Voices for Peace, If not now e Tsedek servem de plataforma para judeus antissionistas que veem no projeto colonial israelense a principal ameaça à segurança de judeus no mundo. O visível aumento de judeofobia (termo que prefiro a “antissemitismo”, em razão das origens racialistas deste último) é extremamente preocupante e devemos sempre afirmar que a colonização da Palestina nada tem a ver com o pertencimento religioso, apesar do uso indiscriminado do judaísmo e do Holocausto para justificar a violência do projeto sionista. A luta contra a judeofobia inscreve-se na mesma luta pela libertação dos palestinos, isto é, a luta por um mundo onde ninguém é discriminado por suas identidades, sejam elas étnicas, religiosas, sexuais, de gênero ou qualquer outra.



Gabriel Semerene é pesquisador e escritor brasileiro de origem libanesa. Especializado em política e culturas das sociedades de língua árabe, residiu no Líbano e viajou amplamente pela região. Mestre em Política Comparada do Oriente Médio pelo Institut d'Études Politiques Aix-en-Provence; mestre e ex-doutorando em Língua e Civilização Árabes na Sorbonne, Paris.




Anneliese Feiler é advogada, pesquisadora nas áreas de direito empresarial, direitos humanos e direito internacional e curadora do FSMSSS.


Rafaela De Negri é Jornalista, mestra em International Security and Development com foco em violência estrutural pela Jagiellonian University. Especialista em  Estratégia e Relações Internacionais Contemporâneas e Coordenadora Geral do FSMSSS e da ObservActiva.


Linha do tempo conflitos entre Palestina e Israel:


Década de 1870 - Movimentos de unificação na Europa, manifestação da solidificação do Estado Moderno que acionou desejos de legitimação estatal ao redor do globo


1881 - Primeiro Congresso Sionista. Movimento motivado pelas perseguições a comunidade judaica sofria na Europa. O movimento pedia a formação de um Estado Moderno para os Judeus, foi decidido pela região de Zion - Jerusalem - como terra prometida e futuro Estado. 


1914 - 1919 - Primeira Guerra Mundial


1916 - Acordos secretos de Sykes-Picot para dividir as agora europeias terras do antigo Império Otomano na região após a futura queda do Império. Divisão entre Mandatos franceses e britânicos. Aliança com elites locais e permissões especiais a partir da necessidade de controlar a região, assim se alinhando com os árabes e seus desejos de formação de Estado Moderno. 


1917 - Declaração de Balfour. Inglaterra libera migração de judeus para região e também se compromete, caso ganhassem a guerra contra os otomanos, a ajudarem na formação de um Estado judeu. Campanhas de terror da comunidade judaica recém migrada. Queimadas e destruições de terra, ocupação forçada que já começaram a criar um exodo palestino. 


1923 - Fim do Império Otomano. Divisão das terras e continuação dos Mandatos franceses e ingleses. 


1936 - Primeira Intifada de resistência palestina contra os ataques e políticas de terror da comunidade judaica pela ocupação das terras. 


1947 - ONU aprova resolução que prevê a partilha da Palestina, criando um Estado para os judeus, recentemente vitimados pelo Holocausto na Europa. Jerusalém teria status internacional. A Liga Árabe recusa a proposta.


1948 - A Inglaterra retira suas tropas. O Estado de Israel é proclamado. Egito, Iraque, Transjordânia, Líbano e Síria promovem ataques. Israel vence e ocupa toda a Galiléia e o Deserto de Neguev. Com o cessar-fogo, Israel devolve a Cisjordânia aos árabes, que a unificam com a Transjordânia, criando o Reino da Jordânia. A Faixa de Gaza passa a ser dos egípcios. Os palestinos ficam sem território próprio. Nakba, exôdo palestino pela violência organzinada do Estado de Israel. 


1956 - Escalada constante do poder militar de Israel, altamente organizados e começando a solidificar seu Estado como “máquina de guerra”. Guerra do Suez. Egito, sob o comando de Gamal Nasser, nacionaliza o Canal do Suez. Israel, com apoio de Inglaterra e França, ataca o Sinai e chega ao Mar Vermelho. EUA e URSS obrigam Israel a recuar. 


1959 - Criação da Al Fatah, então uma organização guerrilheira palestina, liderada por Yasser Arafat.


1964 - Palestinos criam a OLP, que viria a ser presidida por Arafat, com o objetivo de criar um Estado próprio e combater Israel. A Al Fatah passa a ser o braço armado da nova organização.


1967 - Guerra dos Seis Dias. Egito corta o acesso israelense ao Mar Vermelho. Israel bombardeia Egito, Síria e Jordânia e conquista toda a região do Sinai, a Cisjordânia e de Golã, triplicando seu território. Controla a totalidade de Jerusalém.


1972 - Um grupo guerrilheiro palestino sequestra 11 atletas israelenses na Olimpíada de Munique. Tiroteio com a polícia deixa todos mortos.


1973 - Guerra do Yom Kippur. Egito e Sírio atacam Israel no feriado judeu. Israel contra-ataca e vence.


1979 - Acordos de Camp David. Com mediação dos EUA, Egito e Israel assinam tratado que devolveu o Sinai ao país árabe.


1982 - Invasão do Líbano. Israel ataca a OLP no sul do país e controla o Beirute ocidental. Permite o massacre de refugiados palestinos por milicianos cristãos nos campos de Sabra e Chatila.


1987 - Intifada. Populações palestinas sob controle israelense se revoltam e lutam nas ruas, normalmente com armas simples, como paus e pedras.


1993 - Acordos de Oslo. Yasser Arafat e Yitzhak Rabin firmam acordo de paz, estabelecendo autonomia palestina na Cisjordânia e na Faixa de Gaza, excetuando-se as colônias de judeus no interior desses territórios.


1995 - Rabin é assassinado por um militante judeu contrário aos acordos de paz.


2000 - Segunda Intifada. O general e presidenciável Ariel Sharon - visto pelos palestinos como responsável pelos massacres de Sabra e Chatila - visita a Esplanada das Mesquitas, em Jerusalém Oriental. O ato é visto como provocação e detona uma nova revolta popular.


2001 - Sharon é eleito primeiro-ministro israelense. Toma medidas que desagradam os palestinos, como a construção de uma cerca em torno da Cisjordânia.


2004 - Morre Yasser Arafat. Mahmoud Abbas, também do Fatah, o substitui no comando da Autoridade Palestina.


2006/2007 - O grupo islâmico Hamas vence as eleições parlamentares palestinas. Na prática, assume o controle da Faixa de Gaza.


2008 - Após trégua de seis meses entre Hamas e Israel, o grupo islâmico passa a lançar foguetes da Faixa de Gaza em direção a Israel. No fim do ano, Israel responde com ataques aéreos, matando mais de 400 pessoas.


2009 - Israel invade a Faixa de Gaza.


2012 - Israel mata o chefe militar do Hamas, Ahmed Jabari, desencadeando mais de uma semana de disparos de foguetes a partir de Gaza e de ataques aéreos israelenses. Pelo menos 150 palestinos e seis israelenses foram mortos.


2014 - Militantes do Hamas mataram três adolescentes israelenses raptados perto de uma colônia judaica na Cisjordânia, o que provocou uma resposta militar israelense conhecida como “Operação Margem Protetora” ou “Borda de Proteção”. O Hamas responde com ataques de foguetes a partir de Gaza.  O conflito, que durou sete semanas, deixou mais de 2.200 palestinos mortos. Em Israel, 67 soldados e seis civis foram mortos.


2016 - A resolução reafirmou que o estabelecimento de assentamentos no território palestino ocupado desde 1967 não possui “validade legal” e constitui uma “flagrante violação sob o Direito internacional e um obstáculo para a visão de dois Estados vivendo lado a lado em paz e segurança, dentro de fronteiras internacionalmente reconhecidas”


2018 - Protestos em Gaza, ao longo da fronteira com Israel. Mais de 170 manifestantes foram mortos. Em novembro, Israel realizou uma incursão secreta em Gaza. Pelo menos sete supostos militantes palestinos e um oficial superior do exército israelense foram mortos. A partir de Gaza, são disparados centenas de foguetes contra Israel.


2021 - Polícia israelense invadiu Mesquita de Al-Aqsa, um dos lugares mais sagrados do islamismo. O Hamas disparou foguetes contra a cidade e Israel retaliou com ataques aéreos. Deixou mais de 200 mortos em Gaza e pelo menos 10 mortos em Israel.


2022 - Marcou uma série de ataques mais mortais e violentos dos últimos anos por parte dos palestinos. Como resposta, Israel lançou a operação militar “Quebra Ondas” na Cisjordânia. Deixou cerca de 146 palestinos e 29 israelenses mortos.


2022 -  Sexto mandato de Netanyahu como primeiro-ministro de Israel. Bloco de políticos de extrema-direita levados ao poder.


Janeiro de 2023 - Forças israelenses invadiram a cidade palestina de Jenin, matando nove pessoas, em 26 de janeiro. No dia seguinte, um atirador palestino matou sete pessoas numa sinagoga de Jerusalém Oriental.


Maio de 2023 - Israel lançou ataques aéreos surpresa em toda a Faixa de Gaza, tendo como alvo os líderes da organização militante Jihad Islâmica, que é apoiada pelo Irã. Os ataques mataram três líderes militantes e 10 outras pessoas, incluindo quatro mulheres e quatro crianças.


20 de Junho de 2023 - Forças israelenses invadiram Jenin e enviaram helicópteros Apache e dois homens do Hamas que mataram quatro israelenses nos arredores da colônia de Eli.


21 de junho de 2023 - centenas de colonos israelenses invadiram aldeias palestinas. Israel efetuou então o seu primeiro ataque com drones na Cisjordânia desde 2006, matando três supostos militantes.


Julho de 2023 - Israel realizou um ataque aéreo e terrestre com 1.000 soldados apoiados por ataques de drones contra um campo de refugiados em Jenin, tendo como alvo um  “centro de comando” militante


Outubro de 2023 - Ataque surpresa dos militantes do Hamas, um dia após o 50º aniversário do início da guerra do Yom Kippur de 1973, por via aérea e marítima. O primeiro-ministro israelense, Netanyahu, afirmou que o país estava em guerra.


Israel corta acesso básico à faixa de Gaza: 

O ministro israelense da Defesa, Yoav Gallant, afirmou ontem que não permitiria "nenhuma eletricidade, comida, água ou combustível" em Gaza, em uma tentativa de apertar o cerco ao enclave palestino de 2 milhões de habitantes.  Fonte: Exame

Com a escalada da violência, aumentam os protestos pela libertação palestina ao redor do mundo. Na foto, a marcha pela liberação palestina na Freedom Plaza, em Washington, nos Estados Unidos, em 4 de novembro de 2023 / Licença Creative Commons


Posicionamento Comissão Internacional Independente de Inquérito das Nações Unidas: 

Já existem "evidências claras" de que crimes de guerra foram cometidos por ambos os lados do conflito entre Israel e Palestina, segundo a Comissão Internacional Independente de Inquérito das Nações Unidas sobre o Território Palestino Ocupado. “Todos aqueles que violaram o direito internacional e atacaram civis devem ser responsabilizados por seus crimes”.

As evidências de crimes de guerra começaram a ser coletadas no sábado (7), após o ataque do Hamas a Israel. "Os relatos de que grupos armados de Gaza mataram centenas de civis desarmados são abomináveis ​​e não podem ser tolerados. Fazer reféns civis e utilizar civis como escudos humanos são crimes de guerra”, diz a nota,  que ressalta a urgência de que as partes envolvidas cessem a violência e garantam a proteção dos civis.

A Comissão afirma estar “seriamente preocupada” com o último ataque de Israel a Gaza e com o anúncio israelense de um cerco total à região envolvendo a retenção de água, alimentos, eletricidade e combustível, “o que custará, sem dúvida, vidas de civis e constitui uma punição coletiva". O colegiado insta as forças de segurança israelitas e os grupos armados palestinos a respeitar estritamente o direito internacional humanitário e o direito internacional em matéria de direitos humanos.


Posicionamento Tribunal Internacional Penal: 

A Palestina apresentará uma queixa ao Tribunal Penal Internacional (TPI) contra o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, e as Forças de Defesa de Israel (IDF, na sigla em inglês) acusando-os de genocídio contra o povo palestino, disse o ministro da Justiça palestino, Mohammed al-Shalaldeh, à agência Sputnik, nesta segunda-feira (23). 

"Nós, como vítimas, temos o direito de apresentar queixas ao Tribunal Penal Internacional, e processaremos o primeiro-ministro israelense, o chefe de gabinete e todos os comandantes que ordenaram aos soldados e oficiais que travassem esta guerra de agressão, cometessem genocídio contra pessoas indefesas e destruíssem instalações civis, hospitais e residências", disse o ministro.

Por sua vez, a Corte Internacional de Justiça (CIJ) realizará audiências públicas sobre as "consequências legais" das práticas de Israel nos territórios palestinos em 19 de fevereiro de 2024, disse a CIJ na segunda-feira.


Posicionamento juristas com bagagem internacional: 

De acordo com a ex-juíza do TPI, a progressiva ocupação de territórios palestinos por Israel, desde 1948, deveria ter sido punida pelo Direito Internacional — inclusive há decisões da Corte Internacional de Justiça declarando a ilegalidade da medida. Mas, como não há sanções, "é uma questão de relações internacionais, e não do Direito".

Fonte: Conjur


29 de Dezembro de 2023 - África do Sul denuncia Israel por crimes de guerra e Genocídio no Tribunal Internacional de Justiça (ICJ). No documento de 84 páginas apresentado ao Tribunal são relatadas políticas de terror e aniquilação contra o povo palestino aplicadas sistematicamente pelo Estado de Israel. Destruição do sistema de saúde, dos centros de educação e da produção de alimentos - promovendo, inclusive, queimadas na região para inutilizar a terra. O grupo sul africano apresenta provas e o processo é aberto. Enquanto isso, tentativas de cessar fogo continuam dentro dos organismos internacionais e do Conselho de Segurança, com Israel negando todas as propostas.

Fonte: ICJ-CIJ

Todas curadorias são revisadas pelas coordenadoras Isadora Borba e Rafaela De Negri


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